O relançamento do Detestation mexeu comigo

Eu definitivamente não sou o maior conhecedor de punk japonês, um título que eu deixo pro @vinidamazio (que colaborou com este texto) mas devo confessar que fiquei completamente ablublublé das ideia quando vi que a Relapse simplesmente teve a pachorra de relançar o primeiro disco do G.I.S.M., o PODEROSÍSSIMO Detestation.

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Olha essa capa, caralho (foto de @vinidamazio)

Deus me livre e guarde de tentar fazer um texto extenso que abarque toda a VIDA E OBRA do G.I.S.M., que conta com duas personalidades absolutamente relevantes se você dá a mínima pro famigerado rolê punk/heavy: Sakevi Yokoyama, o frontman completamente doido que metia porrada se visse alguém com camisa da banda na rua, ameaçou gente com lança-chamas em show e dono de um dos vocais mais únicos que eu já ouvi na vida. O cara mia, urra, geme, grita, guincha, mete uns spoken word, faz tudo que você possa imaginar; junto dele, o finado Randy Uchida, responsável pela RIFFERAMA 100% heavyzêra que permeia o som da banda. Admito que me falta até VOCABULÁRIO pra falar do que esse homem fazia, então deixo aqui o único EP do Randy Uchida Group, projeto paralelo ao G.I.S.M.:

Se tem uma coisa que eu acho mágica na história da música é a polinização cruzada que todo e qualquer movimento sofre antes de se estabelecer e exemplos disso não faltam: a primeira onda de black metal burro capitaneada pelo Sarcófago aqui no Brasil, o Gods of War do Blasphemy que é basicamente um disco de grindcore, o próprio Napalm Death dando seus primeiros passos lá na Inglaterra. Era gente que não fazia a menor distinção entre punk, metal ou o raio que o parta, sem o menor medo de misturar influências que pudessem causar qualquer forma de estranhamento e essa linha de raciocínio se aplica perfeitamente ao que foi feito em Detestation, o que vai ser discutido um tiquinho mais à frente.

Voltando ao G.I.S.M. — a banda deu seus primeiros passos lá por 81, participou de umas coletâneas aí, até o lançamento do Detestation em 83.

Uma nota contextual: tudo isso se deu em meio à grande comoção dentro da sociedade japonesa, que ainda lidava com as marcas de um assassinato absurdo ocorrido em Kanagawa, província ao sul de Tóquio, em 1980. Um adolescente, suburbano em todas as acepções possíveis da palavra, espancou seus pais até a morte com um taco de beisebol de alumínio. A mídia, os vizinhos e o próprio moleque não sabiam explicar a motivação por trás de tamanha barbaridade.

O impacto disso? O país se viu na obrigação de olhar para seus jovens e os índices galopantes de delinquência e alienação juvenil. Bōsōzokus [暴走族] e tsupparis [つっぱり], as gangues de garotos e garotas-problema logo ganharam o noticiário dos jornais, viraram temas de novela e presença constante nos mangás da época. E o que jovens putos da vida dentro de uma sociedade tão marcada pela disciplina como a japonesa fazem? Fazem merda. Porrada e trocação franca entre professores e alunos eram mais comuns do que se imagina, levando escolas a reagirem com uma política severa, marcada por regras completamente malucas e expulsões em série, aumentando a já habitual pressão japonesa em cima da molecada, que no final das contas, jogava tudo pro alto, largava mão desse negócio de estudar e bolava maneiras de botar sua vingança em prática.

A vingança, é claro, vem na forma de música também — o Japão, ao meu ver, sempre foi um berço fértil para a experimentação, considerando sobretudo sua cena noise, dissecada no livro Japanoise: Music At the Edge of Circulation, de David Novak, que definitivamente vale uma leitura descompromissada se você tem o mínimo interesse de como um cenário tão particular e idiossincrático surgiu ali. Toma aqui o PDF, distribuído pelo próprio autor. Ecos desse ethos definitivamente dão as caras no som do G.I.S.M., especialmente em seus álbuns posteriores, mas isso é conversa para quando os outros relançamentos inevitavelmente surgirem.

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Você diria não a este homem?

Dito tudo isso: o ataque do G.I.S.M. teve início quando Shigehisa “Sakevi” Yokoyama (vocais), Randy Uchida (guitarras) e Kannon “Cloudy” Masuo (baixo) se juntaram para formar uma banda que reunia o que havia de mais radical, sujo, acintoso e provocativo no punk da época, junto à sensibilidade metaleira com guitarra punhetada e sem medo de ser feliz. É Discharge, é Iron Maiden, G.B.H. e Loudness, tudo junto como se fosse a mesma coisa.

Os primeiros shows do grupo foram, claro, no circuito estudantil. Para dar conta das baquetas, Sakevi pediu a ajuda da amiga Kaori Kōmura, ainda adolescente. “Quando conheci Sakevi, ele já era um estudante universitário, enquanto eu ainda estava no ensino médio. Um dia, em 1981, ele me pediu para ser a baterista no show de estreia do G.I.S.M., então ajudei até eles acharem um baterista de punk de verdade!”, explica.

Hoje conhecida pela sua trajetória no free jazz e improvisação livre, Kaori deu conta de dois shows: a estreia na Universidade de Tóquio e a sequência na Universidade Nihon. Clicando aqui você pode ter um gostinho de uma dessas apresentações.

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Primeira formação da banda, ainda com Kaori nas baquetas

Como havia comentado ali em cima, algumas participações em coletâneas marcaram a fase inicial do G.I.S.M., logo vieram mudanças na formação (Tōru “Mario” Hiroshima assumiu as baquetas) e a gravação de Detestation. E olha, eu sinceramente não faço a menor ideia de como descobri esse disco, mas muito provavelmente baixando aleatoriamente no Soulseek, como já aconteceu com tantos outros álbuns que moldaram meu caráter. Devo confessar que, lá pelos meus 16 anos, não entendi foi porra nenhuma. Pouco afeito ao heavy metal, gênero que só fui dar bola depois de velho, simplesmente me faltavam as FERRAMENTAS NECESSÁRIAS para entender o Detestation, mas de qualquer forma duas coisas me saltaram aos ouvidos de primeira: a gravação completamente tenebrosa e a guitarrinha melosa no meio de toda aquela fuleiragem, com “Endless Blockades For the Pussyfooter” dando o tom do que viria ao longo do álbum.

Vem bobo.

A guitarra não me cativou de primeira, mas o vocal era bruto demais e já se aproximava de uma linguagem que eu entendia melhor na época. Como dito no primeiro parágrafo, o cara simplesmente faz TUDO e faz BEM, abrindo precedente para toda uma geração de urradores tanto no punk quanto no metal. Se ele teve de fato alguma influência no que veio depois, só deus sabe, mas não há como negar o pioneirismo do homem ao longo de Detestation. É um disco único não só para a época, mas que segue inigualável até hoje, dando até mesmo frutos em algumas bandas atuais, como é o caso do Devil Master e Zorn, que pegam o clima violento e unem aos devaneios guitarreiros de um Randy Uchida.

Fato é que Detestation e o próprio G.I.S.M. acumularam kvlt points ao longo de décadas no UNDER tanto pelos relatos de performances violentas da banda quanto pela crueza e brutalidade dos sons que preenchem os 20 minutos do álbum, cuja prensagem mínima o tornou item de colecionador ao longo dos anos que se passaram, uma espécie de Santo Graal do punk japonês que normalmente só encontraríamos em bootlegs ou edições carésimas da época no Discogs.

A notícia do relançamento chegou como uma bomba, considerando que a última versão do álbum, em CD, foi feita em 1992 pela Beast Arts, selo do próprio Sakevi, relançamento este considerado um ato inesperado de boa vontade (e possível necessidade brutal de pagar umas contas), a comoção e pilantragem por parte do público foi tamanha que a Relapse teve que tirar o site do ar porque tinha corno comprando o disco em LOTES para revender depois. Mesmo com nossa querida moeda valendo menos do que aquilo que o gato enterra, cogitei estar adquirindo esta que é uma peça tão importante no quebra-cabeças que é a música extrema mundial, mergulhando radicalmente na discografia dos caras desde que o anúncio foi feito e já na torcida para que outros clássicos perdidos do país sejam trazidos à baila para que toda uma nova geração possa amar, odiar ou só ficar sinceramente confuso com o jeito único com que os japoneses faziam e fazem seu punk.

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(grato ao @vinidamazio pela participação em vários trechos do texto, ao Tucho do Nada Tá Bom Nunca por ter enchido saco para que eu cometesse este artigo e ao Felipe da Clan dos Mortos Cicatriz pela amizade e amor compartilhado pelo punk japonês que certamente influenciaram isso aqui)

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Escrevo, traduzo, como, cozinho, reclamo, tenho bandas.

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